O Céu Por Cima de Cá
Não tenho as palavras certas para descrever o que O Céu Por Cima de Cá representa para mim. Por um lado, é um dos primeiros espetáculos em que tive o prazer de pisar o palco com mais 5 artistas incríveis da Companhia de Música Teatral que desde então, e muito devido ao tempo que passámos juntos a construir esta peça, se tornaram os meus melhores amigos. Família, mesmo.
Também foi um grandecíssimo grito do Ipiranga contra as limitações impostas pela Pandemia. Uma prova de que era simultaneamente possível manter e criar ligações entre pessoas, pessoais ou artísticas, mantendo a segurança de todos os envolvidos. Que a pandemia nos podia levar muito (e se levou, eu ainda não acabei o meu luto e não creio que a maioria das pessoas sequer o tenham começado), mas não nos pode levar aquilo que nos torna inerentemente humanos, que é a sociedade e as relações que construímos com os outros.
Sobre o espetáculo, foi talvez a nível técnico a coisa mais megalómana que me propus a fazer, com gestão de projeções e lançamento de samples e efeitos áudio em 6 microfones e 2 instrumentos digitais. Tinha que estar a controlar dois projetos incrivelmente complexos em 2 computadores, em 2 softwares diferentes (TouchDesigner para vídeo e Ableton Live para áudio). Simultaneamente também estava a gerir uma sessão de Zoom para os elementos do público que assistem e interagem com as personagens em palco à distância.
Visto com a distância dos anos, e com tudo o que aprendi a nível técnico entretanto, apenas posso ficar espantado, envergonhado e simultaneamente orgulhos da loucura que foi toda a minha gestão do espetáculo daquela "torre de controlo" onde me encontro no palco.
Que o espetáculo nunca tenha falhado ou colapsado a meio é algo que me fascina, e mesmo em edições subsequentes anos depois, é incrível para mim a estabilidade do mesmo no dia da estreia (não obstante a instabilidade nos ensaios).
É um espetáculo profundamente humano, um abraço e um aceitar do sofrimento, um olhar para o mundo através dos olhos de personagens que não existem (Anjitsuri), meio pássaros meio pessoas meio anjos, que não falam mas respondem em poemas e canções e danças e piadas. Um call-center do sofrimento sem respostas a dar. Um ponto de encontro com todos os que nos viram, onde se partilhou e lembrou aquilo que torna a arte uma parte indissociável da experiência humana, que é a ligação com o próximo.
É um espetáculo que na verdade me satisfaz tanto enquanto artista e pessoa que ignoro completamente o potencial impacto que terá para o público. Penso que têm gostado, mas não faço ideia se vêm naquelas nuvens e naqueles seres a magia que eu vejo.
Um pouco como todos os espetáculos da CMT em que participei, é algo que vai para além de um simples trabalho e tornou-se uma parte indissociável do meu crescimento enquanto pessoa e artista, e que moldou profundamente a minha visão do mundo e a minha relação com os que me rodeiam.